Oi, eu sou o Rodrigo.
E esse é o quinto episódio de onde eu tava quando aquilo aconteceu.
Se você prefere escutar, é só usar o player ali no alto, ou buscar em qualquer tocador de podcast (inclusive recomendo). Se prefere ler, é só ir em frente.
Se gostar, me conta?
No dia 27 de setembro de 2018, era uma quinta-feira, ali no fim da manhã, e eu tava na entrada de um parque. Tava meio vazio, e eu peguei meu celular pra fazer uma selfie na frente de um banco. Um banco de madeira, sabe, esses bancos de praça. Tava bem velhinho o banco, bem castigado, meio sujo. E do lado do banco, um pouquinho depois da entrada do parque, tinha uma casa. Uma casa enorme. Foi naquela casa que, muito tempo atrás, um eletricista chegou pra fazer um reparo e descobriu uma das notícias mais chocantes dos anos 90.
Ato 1: A meia
Antes do banco, eu já vou começar fazendo um desvio, se você me permitir. Daqui a pouco eu chego em 2018. Mas antes eu vou lá nos anos 90. E não é com a história do eletricista não, essa eu vou te contar daqui a pouco.
O primeiro episódio do onde eu tava, “O subsolo”, tem a ver com o Axl Rose. E esse primeiro desvio de hoje também tem a ver com o Guns n’ Roses. Vai até parecer que eu sou o maior fã de Guns, e eu nem sou, hoje eu nem tenho o hábito de ouvi. Mas antigamente eu gostava.
Eu vou te contar uma história que começa no dia 17 de setembro de 1991. A cena lá do banco no parque também é em setembro, mas não confunde não, aquela é em 27 de setembro de 2018. Essa agora é 17 de setembro de 91.
Você já tinha nascido?
Bom, nesse dia o Guns n’ Roses lançou mundialmente um álbum chamado Use Your Illusion. Na verdade eram dois discos duplos, Use Your Illusion 1 e 2, um com a capa amarela e o outro com a capa azul. No total eram mais de 3 horas de música.
Era um lançamento monumental, a expectativa era um negócio absurdo, não tem como comparar com nada que acontece hoje em dia na era do Spotify.
Algumas músicas o público já conhecia, tipo You Could Be Mine, que era trilha sonora do filme O Exterminador do Futuro 2, com o Schwarzenegger.
Então já tava todo mundo maluco pelo lançamento do disco.
Teve loja nos Estados Unidos que abriu meia-noite, e era assim:
Com um detalhe: o lançamento foi simultâneo em vários países, inclusive no Brasil. Então dia 17 era uma terça, mas eu lembro que eu não comprei os discos na terça. Eu nem lembro exatamente em qual dia eu consegui juntar aquele dinheiro, porque CD não era uma coisa muito barata, ainda mais nesse caso, que eram dois CDs duplos. E eu não trabalhava, eu tinha 13 anos.
Mas assim que eu consegui o dinheiro com os meus pais, eu corri pra Lojas Americanas. Eu morava no Rio de Janeiro — ainda moro — e nessa época eu morava na Tijuca.
A Tijuca é um bairro de classe média na Zona Norte do Rio. E a Americanas ficava na Rua Conde de Bonfim, era pertinho da minha casa, dava pra ir a pé.
Só que ali no começo dos anos 90, a Tijuca tinha muito assalto na rua. Não que hoje não tenha, mas naquela época tinha muito. Nem eram assaltos violentos, era gente roubando tênis, relógio, cordão. Não tinha celular pra roubar naquela época, mas às vezes roubavam até roupa, camisa, qualquer coisa.
Então tava rolando uma tática na Tijuca: esconder o dinheiro na meia. Você botava as notas dentro da meia, aí o ladrão chegava e você mostrava os bolsos: “Não tenho nada, pode ver”.
Eu tenho essa lembrança de que no Rio de Janeiro rolava uma relação quase ingênua entre assaltante e assaltado. Tinha um diálogo, sabe?
Ou até mais: você deixava uns dois reais no bolso pro ladrão, e botava o resto na meia. Depois, com a chegada do celular, muita gente no Rio tinha o celular do ladrão. Que era um celular mais vagabundinho, baratinho, era pra ser roubado. E outro melhor que você deixava em casa. O Brasil não é pra amadores.
Essa tática de botar o dinheiro na meia, é claro que ela não durou muito tempo, né, porque em algum momento os ladrões sacaram.
Mas ali naquele setembro de 91, ainda tava valendo. E foi o que eu fiz. Botei meu dinheiro contadinho na meia, e fui andando até a Lojas Americanas. Naquele dia eu fui especialmente tenso, porque aquele dinheiro era muito importante. Era o dinheiro dos CDs do Guns n’ Roses.
Então eu fui andando, olhando pros lados, mas beleza, como era um caminho bem curto, cheguei na Americanas são e salvo, aliviado. Entrei na loja, fui na direção da seção de música. Só que eu devo ter dado tanta bandeira na rua, o medo devia estar estampado na minha cara, que um garoto entrou atrás de mim. Dentro da loja.
Ele devia ter mais ou menos a minha idade, uns 13, 14 anos.
Quando eu olhei pro lado, ele me empurrou pra um corredor da loja, e falou: “Me dá o dinheiro”. Ele apontou pra mim… uma chave de fenda. Não era uma faca, um revólver, era uma chave de fenda. Com o cabo amarelo, eu lembro até hoje desse detalhe.
Só que eu, carioca, tijucano, malandro, prevenido, eu não tinha nada no bolso, meu dinheiro tava seguro dentro da meia. Então o que eu fiz?
Eu imediatamente enfiei a mão dentro da meia, peguei todo o dinheiro e entreguei pra ele. Voluntariamente. De mão beijada. Porque eu pensei: vai que esse cara descobre que eu tô escondendo o dinheiro e enfia essa chave de fenda na minha barriga. Vou entregar logo. Ele pegou o dinheiro e saiu correndo pra rua.
Eu lembro que várias pessoas viram a cena, foi dentro da loja, né? Mas isso era uma coisa tão normal na Tijuca, que todo mundo seguiu a vida, ninguém veio falar comigo, nada. Mais um dia comum na Zona Norte do Rio de Janeiro. E eu fiquei sem o dinheiro pra comprar o CD do Guns n’ Roses.
Esse episódio foi tão traumatizante pra mim, que eu perdi a memória de quanto tempo eu levei pra juntar o dinheiro de novo, ou se meus pais ficaram com pena de mim e me deram, ou se eu voltei na Americanas ou comprei em outro lugar, ou se eu guardei o dinheiro na meia de novo, não lembro de nada.
Eu sei que, em algum momento, eu comprei aqueles CDs, porque inclusive eu tenho eles até hoje. Nem tenho mais aparelho que toca CD, mas os CDs ainda estão aqui.
Na minha memória, o que ficou foi aquela chave de fenda de cabo amarelo quase espetando a minha barriga.
Eu quis começar contando essa história porque é uma das lembranças mais antigas que eu tenho de comprar um disco — ou, nesse caso, de tentar comprar um disco. De ter acesso a música.
O CD tinha chegado no Brasil nos anos 80, e antes disso a minha casa sempre teve vinil, mas não era eu que comprava, eu ganhava. Esses vinis ainda estão na casa da minha mãe: Balão Mágico, tinha uns da Rita Lee, que eu adorava. O primeiro show que eu fui na vida foi da Rita Lee, mas é minha mãe que conta isso, eu não tenho nenhuma lembrança.
E o primeiro CD que eu ganhei, se não me engano, foi do A-Ha. Aquele A-Ha on tour in Brazil, sabe qual é esse disco? Depois eu tive outros CDs, mas o primeiro que eu lembro de ir na loja comprar é esse do Guns n’ Roses — que eu acabei não comprando porque fui assaltado com uma chave de fenda.
Aliás, as duas únicas vezes que eu fui assaltado foram meio inusitadas. A outra vez foi nessa mesma época, anos 90. Eu tava voltando do curso de inglês, não lembro se voltei a pé ou se eu tinha saído do ônibus, mas foi ali na Praça Saenz Pena, uma praça famosa na Tijuca. Eu comprei uma pipoca, e eu fui cercado por uns cinco garotos que roubaram… a pipoca. Só isso.
Ato 2: Nirvana no telefone
Mas esse episódio não é sobre assaltos. É sobre música. Então já que a gente falou do lançamento do Guns n’ Roses, eu preciso te contar que, naquele mesmo mês, setembro de 1991, teve outro lançamento musical muito importante. No dia 24 de setembro, o Nirvana lançou o álbum Nevermind. Você gosta de Nirvana? Eu gosto muito. Até hoje. Muito mais que de Guns n’ Roses.
Só que o lançamento do Nevermind não foi simultâneo em vários países. No Brasil ele só chegou mais pro final do ano. Mesmo antes do disco chegar, em setembro o Nirvana já era uma febre por aqui, porque a MTV já passava o clipe de Smells like teen spirit.
Aquela coisa da cena grunge de Seattle já tava rolando. Inclusive o primeiro disco do Pearl Jam, o Ten, já tinha sido lançado no Brasil em agosto. Então eu já tava alucinado com aquilo. Eu adorava aquelas bandas. Até hoje eu adoro Nirvana, Pearl Jam, Alice in Chains, Soundgarden. E eu tava tenso porque o álbum Nevermind já existia, mas ainda não tinha no Brasil.
Eis que, mais ali pro fim do ano — não lembro se foi outubro, novembro — uma tia minha, a tia Rosa, que é uma pessoa queridíssima, viajou pros Estados Unidos.
Nesse ponto eu vou ser muito honesto contigo, tá? Aliás, eu sempre sou muito honesto contigo, eu não invento nada, não aumenta nada.
A minha memória aqui tá um pouco bagunçada. Eu tô tentando lembrar exatamente, e não tenho como pesquisar, não vou perturbar tia Rosa com isso, e acho que ela também não ia lembrar. Mas pelo que eu lembro, eu fiz um esforço de convencimento com os meus pais, pra pedir pra tia Rosa comprar o CD do Nirvana pra mim.
Já não era fácil arrumar dinheiro brasileiro pra comprar o do Guns n’ Roses. A nossa moeda ainda não era nem o real, era o Cruzeiro. Agora imagina convencer meus pais a comprar uns dólares e entregar pra tia Rosa.
É uma coisa que hoje eu não faria de jeito nenhum, acho muito indelicado. A pessoa vai viajar e você fica pedindo pra ela trazer coisa? É chato, né? Eu sei que você já fez isso. Mas é chato.
Enfim, eu tinha 13 anos - quer dizer, eu já tinha feito 14, porque meu aniversário é em outubro. Então eu não só pedi, mas se a minha memória não tá me traindo, eu dei pra tia Rosa uma listinha com alguns discos, sei lá, uns cinco, e os dólares pra ela comprar dois discos daquela lista. Os dois que ela encontrasse primeiro. E eu torcendo muito pra que um desses dois fosse o Nevermind, do Nirvana.
O pior é que eu não tinha como ficar em contato com ela, não tinha whatsapp pra ela ir me avisando. Eu tive que esperar ela voltar.
Eu lembro que, quando ela voltou, eu não tava em casa, no Rio. Eu tava em Muriqui, uma cidade aqui no litoral onde eu sempre passava as férias com a família.
Quando a tia Rosa voltou dos Estados Unidos, ela também foi pra Muriqui. E levou os CDs pra mim. Eu não sabia quais ela tinha comprado. Então você imagina a minha expectativa, eu só pensava nisso o dia inteiro. E eu fiz uma coisa que eu nunca fazia: na casa de Muriqui não tinha aparelho de som que tocava CD, então eu levei o meu aparelhinho pequeno. Pensei: pô, se ela levar os CDs, eu vou querer ouvir, não vou aguentar esperar o fim das férias pra voltar pro Rio.
E aí, mais uma vez, eu não tenho certeza absoluta, mas se eu não me engano ela trouxe um CD do Sonic Youth, que é uma banda que eu também gosto… e ele, o Nevermind, do Nirvana.
Aí vem a parte que a minha memória tá muito limpa, cristalina. Eu corri pro aparelho de som, botei o Nevermind, mas antes de tocar, eu peguei o telefone. Era um telefone fixo grande daqueles de discar. Eu lembro até da cor, era um verde clarinho meio turquesa. Ficava em cima de uma mesinha.
E eu liguei pra casa dos meus vizinhos no Rio, o Maurício e o Cristiano. A gente gostava das mesmas bandas. Então eu liguei pra eles empolgadíssimo, falei: “Minha tia trouxe o CD do Nirvana. Vou botar aqui pra gente ouvir”. E eu toquei o Nevermind inteiro, segurando o telefone pros meus vizinhos ouvirem junto comigo. Pra eles a qualidade deve ter ficado péssima, né? Mas foi o jeito.
Isso tudo com a minha mãe brigando, porque naquela época ligação telefônica custava dinheiro. Você pegou essa época? Tinha que esperar pra ligar à noite que era mais barato, tinha os pulsos da ligação...
Eu fui até ver aqui a duração do Nevermind, ele tem 42 minutos. Talvez eu não tenha tocado ele inteiro, a minha mãe deve ter interrompido essa ligação em algum momento. Mas fiquei um tempo ali ouvindo Nirvana com os meus vizinhos.
Em breve vou fazer outro episódio do onde eu tava pra contar uma aventura ainda mais maluca comprando CD com meus vizinhos, quando a gente começou a ouvir punk rock. Foi um pouquinho mais pra frente, na segunda metade dos anos 90. A gente comprava CD mandando carta pelo correio com o dinheiro escondido. Mas isso fica pra outro episódio.
Antes eu vou avançar dois anos, até 1993, pra te contar uma outra passagem que ilustra esse jeito como a gente ouvia música nessa época. Mais que isso, o jeito como a gente criava expectativa por música nova.
Ato 3: Animal
Como eu falei, era época de MTV, né? A MTV chegou no Brasil em outubro de 1990. Então lançamento de clipe novo na MTV era um acontecimento. A gente gravava no videocassete pra ficar vendo várias vezes.
Eu era o maior fã de videocassete em todo o território brasileiro. Eu gravava tudo, era um maníaco. Inclusive recentemente eu comprei um videocassete usado na internet. Tem que ser usado né, porque novo é meio difícil hoje em dia. Comprei pra ver umas filmagens antigas de família. Agora ele tá aqui ocupando espaço num armário.
Então eu também gravava clipe, eu tinha várias fitas VHS com clipes. E clipe era um negócio tão importante que a MTV tinha todo ano o VMA’s, o Video Music Awards, que era tipo o Oscar dos melhores clipes. A cerimônia tinha umas apresentações ao vivo.
E eu lembro que um dos momentos musicais mais marcantes pra mim foi no VMA’s de 1993. Por causa do Pearl Jam.
O Pearl Jam naquele momento era a minha banda favorita. E ainda é uma das favoritas até hoje. Mas ali em 93 a banda tava pra lançar o segundo disco, o Versus. E ninguém tinha ouvido nenhuma música nova. A gente só conhecia as músicas do primeiro disco, o Ten, esse foi um CD que eu ouvi até gastar.
O VMA’s na MTV foi dois meses antes do lançamento do segundo disco. O Pearl Jam tava concorrendo em várias categorias. E ia fazer uma apresentação ao vivo. Anunciaram que eles iam tocar no VMA’s uma música nova, do disco novo.
Eu fiquei num estado de ansiedade, como se aquilo fosse a coisa mais importante do ano, sabe? Essa relação com a música é muito doida. Eu ficava pensando: como será que vai ser essa música? Será que vai ser parecida com as músicas do primeiro disco? Será que vai ser uma música mais comercial, tipo uma baladinha? Eu não curtia muito baladinha romântica não, eu queria pancada. Ficava especulando com os meus vizinhos.
Então esse é um dia que tá muito vivo na minha memória: o dia do VMA’s, 2 de setembro de 1993 (já reparou que tá cheio de setembro nesse episódio, né).
Eu lembro que tranquei a porta do meu quarto pra ninguém me atrapalhar, e fiquei sentado no chão, em frente à TV. Geralmente eu via TV sentado na cama, ou deitado, mas naquele dia eu queria ficar perto da televisão.
Claro que eu botei uma fita virgem no videocassete pra gravar, e fiquei ali vendo a transmissão, ansioso… até que o Christian Slater, o ator que apresentou aquela edição, anunciou o Pearl Jam e disse que a banda ia tocar uma música nova que eles nunca tinham tocado em lugar nenhum.
Eles tocaram Animal. Que era uma pancada.
Era a primeira vez em mais de dois anos que eu tava ouvindo uma música nova do Pearl Jam. E os caras da banda pulando de um lado pro outro no palco. O Eddie Vedder, o vocalista, bem no centro, parado. Ele tava com o cabelo mais curto, no primeiro disco ele tinha um cabelo bem longo. E daquele jeito dele meio possuído, com aquele olhar de psicopata que ele tem.
E eu fiquei ali na frente da TV totalmente hipnotizado vendo aquela apresentação.
Não por acaso, essa música tá até hoje entre as minhas preferidas do Pearl Jam. Talvez até num top 3, top 5. Se você gosta de Pearl Jam, você sabe que Animal não tá entre as músicas mais clássicas da banda. Mas por causa desse dia, desse impacto, eu ali sentado no chão e grudado na televisão, essa música até hoje é muito marcante pra mim.
Ato 4: Stalkeando Seattle
Bom, já falei de Pearl Jam, já falei de Nirvana, então você já deve ter percebido que eu era fã dessas bandas de Seattle, né?
Quando o disco do Soundgarden quando chegou no Brasil, o Badmotorfinger, eu comprei em fita cassete, na mesma Lojas Americanas onde eu fui assaltado com a chave de fenda. Então isso quer dizer que em algum momento eu superei o trauma.
Mas é isso. Outros discos foram saindo, os anos foram passando, o acesso à música ficou mais fácil, veio a internet, eu já trabalhava, ganhava meu dinheirinho… e aí a gente já cortou pra 25 anos depois, em 2018.
Que foi onde o episódio começou.
Naquele ano eu resolvi gastar meu dinheiro numa viagem de férias que juntava música e essa nostalgia da minha adolescência.
Eu fui pra Seattle.
Não era pra fazer turismo normal. Antes de ir, fiz uma pesquisa, montei um roteiro, e a ideia era passar por vários lugares que foram importantes pra essas bandas nos anos 90. Era uma viagem temática mesmo, bem nerd de música.
Seattle já tem uns pontos turísticos que têm a ver com isso, tipo o Museu da Cultura Pop, que é um dos lugares mais fantásticos que eu já fui na vida. E quando eu fui em 2018 tava rolando uma exposição temporária gigantesca sobre o Pearl Jam.
Então tinha todo tipo de material, desde cadernos onde o Eddie Vedder escrevia as letras, instrumentos musicais… até aquele painel cor de rosa que aparece na capa do Ten. Eu achava que aquilo tinha sido feito no computador, mas não, é uma foto feita na frente de um painel de madeira enorme. E esse painel tava lá no museu.
Tinha muita coisa das outras bandas também. A guitarra que o Kurt Cobain usou no clipe de Smells Like Teen Spirit. Os violões que o Nirvana usou no Acústico MTV.
E tem uma coisa que eu achei maravilhosa no museu que é a fotografia original da capa do Nevermind. Aquela famosa foto do bebê dentro da água com uma nota de dólar como se fosse uma isca. O que tem no museu é a foto original que o diretor de arte, o Robert Fisher, mandou pro pessoal da banda aprovar.
Esse bebê, quando cresceu, processou o Nirvana, porque na época os pais dele ganharam 200 dólares pra botar o bebê embaixo d’água pra fotografar. E a banda obviamente faturou milhões com o disco.
E tem o famoso detalhe que o pintinho do bebê aparece, né. Então nessa foto que o cara mandou pra banda aprovar, tem dois recados. Um é esse: “Se vocês tiverem algum problema com o pinto dele, a gente pode retirar digitalmente”. Mas não retiraram, porque tá lá na capa.
A outra coisa é que nessa foto original o bebê tá numa piscina, dá pra ver o fundo de ladrilho, então ele também escreve: “A gente pode tirar o chão e deixar só a água azul”. Realmente fizeram isso na versão final: o fundo da piscina sumiu, a capa do disco é como se ele estivesse no fundo do mar.
E o museu não é só das bandas. Tem coisas de cultura pop mesmo. No episódio 3, As gêmeas do apocalipse, eu citei o filme O Iluminado, porque as meninas pareciam aquelas gêmeas do filme. Nesse filme tem a cena icônica do Jack Nicholson arrebentando a porta do banheiro com um machado. Esse machado tá no Museu em Seattle.
Outro filme que eu citei nesse episódio aqui: O Exterminador do Futuro, do Schwarzenegger. A jaqueta preta que ele usa no primeiro filme, e o robô metálico, o ciborgue T-800, tudo isso também tá lá no museu. O skate voador do De volta pro futuro 2 tá lá também.
Então você que tá ouvindo, se um dia você tiver a oportunidade de ir pra Seattle, e se você gosta de cultura pop, fica aí a dica.
Mas como eu falei, eu não fui só no museu. Eu fui anotando vários pontos da cidade pra eu passar lá e dar uma olhada.
Por exemplo: o estúdio onde o Pearl Jam fez o primeiro ensaio da banda. Era um estúdio chamado Black Dog Forge, que hoje nem existe mais, mas a fachada tá preservada. Fica num beco imundo, um lugar cheio de lixo, é até difícil passar ali. Mas eu fui.
E eu sempre gravava um videozinho, pra mim mesmo, só pra eu guardar de recordação. Eu nunca mostrei essas coisas pra ninguém. Vou mostrar aqui esse que eu gravei no beco sujo onde ficava o estúdio:
Ato 5: Eu e o banco
Quando eu tava fazendo a pesquisa pra viagem, eu descobri no Facebook que tinha um passeio chamado Stalking Seattle. Era uma mulher com uma van passando por vários pontos que tinham a ver com as bandas. Ela ia parando, ia contando as histórias.
Custava 60 dólares, meio carinho, né? Mas eu tive que fazer. Eu tava lá pra isso. E no dia que eu fiz o passeio, só tinha eu e mais três pessoas na van, então foi ótimo, porque a gente ia fazendo pergunta, ela respondia, foi bem agradável.
Acho que hoje ela não faz mais esse passeio, eu lembro de uma postagem dela dizendo que não tava mais valendo a pena financeiramente. E eu entendo, talvez não tivesse tanta procura.
Aí no fim do passeio, eu achei que ela já tava voltando pro ponto de encontro, mas a van começou a subir por uma estradinha, numa região mais alta da cidade. Era uma área claramente mais rica, com umas casas enormes, umas mansões. Ela estacionou do lado de uma casa bem grande, e a gente desceu. Era a entrada de um parque.
Aquele parque que eu citei no começo do episódio.
A casa ali do lado era a casa onde o Kurt Cobain passou os dois últimos meses de vida.
Foi naquela casa que, no dia 8 de abril de 1994, um eletricista chegou pra fazer um reparo e encontrou o vocalista do Nirvana morto, com um tiro de espingarda, disparado por ele mesmo, foi um suicídio. O corpo dele ainda ficou ali três dias até o eletricista encontrar.
Na entrada do parque fica o banco de madeira que eu citei. Foi ali que eu peguei o celular e fiz mais um vídeo:
Esse banco fica ao ar livre e tem várias mensagens que as pessoas escrevem. Ele tá bem gasto, bem sujo.
É curioso porque essa entrada do parque é um gramado imenso, mas em volta do banco não tem grama, de tanto que os turistas chegam ali pra ver. Acabou ficando uma área grande em volta que não cresce mais grama.
Naquele dia em abril de 94, antes do Kurt chegar em casa, ele fez uma coisa que ele fazia com muita frequência. Ele foi beber num bar chamado Linda’s Tavern. Foi a última vez que ele foi visto vivo. E nessa viagem eu também passei por esse bar.
Tava meio vazio, era um fim de tarde num dia de semana. Sentei numa mesa, pedi um hambúrguer. E puxei papo com o garçom, falei que eu era do Brasil, e perguntei: “Aqui é o bar onde o Kurt Cobain veio no último dia dele, né?”. O garçom até riu, falou “É, todo mundo vem aqui por causa disso, a gente já tá acostumado”.
O hambúrguer chegou, eu lembro que tava bem gostoso inclusive. Pedi a conta, o garçom veio de novo, e falou assim pra mim: “Dá licença, eu posso te falar uma coisa?” E ele me contou um negócio que, quando ele saiu eu até peguei o celular de novo e gravei outro vídeo:
Sério, deu até um arrepio na hora. Porque tinha um monte de mesa vazia, e eu escolhi exatamente aquela onde o Kurt Cobain tinha ficado no seu último dia.
Aí, quando eu voltei pro hotel, eu fui pesquisar na internet.
E eu simplesmente achei vários relatos de que existe uma tradição naquele bar, o Linda’s Tavern: não importa a mesa onde você senta, o garçom sempre fala que aquela mesa onde você tá era a mesa do Kurt Cobain.
Então eu podia ter sentado em qualquer mesa, que ele ia me falar a mesma coisa.
Mas eu escolhi acreditar que, no meu caso, era aquela mesa mesmo.
Tá?
Se você não acredita, tudo bem.
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