Oi, eu sou o Rodrigo.
E esse é o oitavo episódio de onde eu tava quando aquilo aconteceu.
Se quiser escutar, é só usar o player ali no alto, ou buscar em qualquer tocador de podcast (inclusive recomendo). Se prefere ler e ver as imagens, é só seguir em frente.
Depois me conta o que achou? Obrigado!
No dia 24 de setembro de 2018, às 15h40, eu tava no fim de uma fila na avenida mais famosa de Los Angeles. Esse episódio tá bem internacional, ok? Só que eu tava muito perto de um fracasso. Muito perto do meu segundo fracasso tentando viver uma experiência hollywoodiana. E olha que ali em 2018 o problema era só uma fila, não foi tão grave. Porque um ano antes, em 2017, o que me atrapalhou um pouquinho foi um furacão.
Ato 1: O talk show
Talvez você lembre do episódio 5, “O banco do parque”, quando eu contei sobre uma viagem pra Seattle. Aquele episódio começa no dia 27 de setembro de 2018. Esse aqui começa três dias antes, 24 de setembro. Então obviamente é a mesma viagem.
Naquela época eu trabalhava na Globo, e eu tava com um dinheirinho guardado. Resolvi gastar esse dinheiro em duas viagens internacionais em dois anos seguidos, 2017 e 2018. Depois disso eu nunca mais saí do Brasil, mas ali naquele momento deu pra viajar.
E foram duas viagens nostálgicas de música.
Nas duas eu fui pra Califórnia, porque na minha adolescência eu gostava muito das bandas de punk rock da Califórnia. Essas bandas ainda estão na ativa, então eu fui lá pra ver alguns shows. E nessa viagem de 2018, a segunda, além da Califórnia eu também fui pra Seattle — é essa história do episódio 5, sobre Nirvana, Pearl Jam etc.
O objetivo da viagem era música. Mas como eu passei por Los Angeles, pensei: se der, vou fazer um turismo em Hollywood também, né? Não custa nada. Quer dizer, custar até custa, mas enfim.
Eu ia ter um dia livre em Los Angeles antes de ir pra Seattle.
Cheguei em Los Angeles num sábado, 22 de setembro. Nesse primeiro dia já teve um show — do Lagwagon, uma das minhas bandas preferidas de punk rock. Ela é tão preferida que, no dia seguinte, o domingo, eu vi outro show do Lagwagon. Dois shows da mesma banda em dois dias seguidos. E esse segundo show não era em Los Angeles, era numa cidade ali perto chamada Santa Ana, que ficava a uma hora e meia de trem. Vi os shows no sábado e no domingo, e na segunda voltei de Santa Ana pra pra Los Angeles. Era o meu último dia, porque na terça eu já ia pra Seattle.
Antes de viajar, ainda no Brasil, eu fiquei pesquisando o que tinha pra turistar nesse dia livre. E vi que tinha uma opção de ir na plateia desses talk shows americanos. O programa do Jimmy Kimmel é gravado em Los Angeles.
Você entra num site e se inscreve pra tentar arrumar um ingresso e ver a gravação no teatro. É de graça. Você escolhe a data e fica esperando a resposta por e-mail. Detalhe: quando você faz o pedido, não tem como saber quais são os entrevistados daquele dia, porque eles só divulgam a programação em cima da hora.
Eu me inscrevi pra segunda-feira, 24 de setembro. E quando já tava bem perto da viagem, recebi a resposta, dizendo que sim, eu tinha conseguido o ingresso.
Pô, fiquei muito feliz.
Eu sempre quis ver como é que é a gravação de um programa desses. Tipo o programa do Jô, sabe? Eu nunca fui na plateia do programa do Jô, mas eu adorava, assistia todo dia.
Então eu ia ter a chance de ver ao vivo uma espécie de Jô americano.
A gravação era às 16h, e eles pedem pra chegar com uma ou duas horas de antecedência.
Porque tem uma coisa: o ingresso é de graça, mas eles distribuem um número maior de ingressos do que a quantidade que cabe na plateia. Porque a plateia tem que estar sempre lotada, senão pega mal na televisão. Imagina, você tá vendo lá o Jimmy Kimmel, aí mostra a plateia e tá meio vazio? Não dá.
Então pra garantir que vai estar sempre lotado, eles distribuem ingressos a mais. Formam uma fila na entrada, por ordem de chegada. E nem todo mundo consegue entrar, mesmo tendo o ingresso. Eles deixam isso bem claro.
Por isso é importante chegar cedo. Só que eu tava em Santa Ana e tinha um trem pra pegar. O trem era depois do almoço, viagem de uma hora e meia. Eu tava tenso. Com medo de chegar muito em cima do horário, ficar no fim da fila e não conseguir entrar.
Pra piorar, quando eu já tava dentro do trem, fui ler as informações no ingresso e vi que tinha um detalhe importante: no auditório do Jimmy Kimmel, é proibido entrar com mochila. Eu tava com uma mochila. E a verdade é que eu já tinha um trauma com mochila nos Estados Unidos.
Ato 2: A mochila e a caçamba
Em 2009, eu tinha feito outra viagem pros Estados Unidos (muita viagem pros Estados Unidos, né, e é engraçado porque hoje eu não tenho a menor vontade de ir pra lá). Mas em 2009 o tema não era música, era basquete. Era uma viagem meio a trabalho, meio de férias. Eu dei uma esticada no trabalho pra ver uns jogos da NBA. Vi 11 jogos em nove cidades diferentes. Foi uma turnê. Alguns jogos eu tava credenciado como imprensa, e em outros eu comprei ingresso.
Tinha um jogo em Nova Jersey, e eu tava hospedado em Nova York. Peguei um ônibus e fui pra Nova Jersey.
Nesse eu não tava credenciado, tava de turista. E eu tava de mochila. Porque naquela época eu tinha um blog de basquete, o blog Rebote, e eu queria atualizar o blog durante o jogo. Então levei meu notebook numa mochila.
Quando fui entrar no ginásio, o segurança falou que não podia entrar com mochila, nem com notebook, nada. O que é meio óbvio, né? Mas eu não tinha me tocado. Deu-se o diálogo:
RODRIGO: Tá, então eu deixo a mochila aqui.
SEGURANÇA: Não, brasileiro, você não tá entendendo: não tem lugar pra deixar a mochila aqui. Volta lá e deixa no seu carro.
RODRIGO: Mas eu não tô de carro, eu vim de ônibus.
SEGURANÇA: Então volta e deixa em casa.
RODRIGO: Mas não tem casa, amigo, eu tô num hotel lá em Nova York.
SEGURANÇA: Sinto muito, não tem jeito. Não pode entrar com mochila, e não tem lugar pra deixar aqui.
Eu fiquei desesperado. A viagem era pra ver jogo, eu tinha comprado aquele ingresso, eu tinha que entrar pra ver aquele jogo.
Aí eu olhei em volta. A entrada do ginásio tinha uma praça, e tinha umas caçambas enormes, tipo caçamba de lixo, só que tava tudo vazio. Perguntei pro segurança: e se eu esconder a mochila ali naquela caçamba? O cara já me deu um esporro, né? Disse que não podia, que aquilo ficava aberto, que alguém podia abrir a tampa e pegar a mochila.
Tá bom. Saí da fila, porque eu já tava atrapalhando a fila, e fiquei pensando o que eu ia fazer. Fui lá na caçamba. Encostei disfarçadamente, peguei a mochila, tirei o passaporte, a carteira, a chave do hotel… esse era o meu nível de desespero pra conseguir entrar no ginásio. Mas também fiquei pensando: e se jogarem um monte de lixo aqui? E se alguém pegar a mochila? Eu não posso ficar sem o notebook.
Eu ali encostado na caçamba, refletindo, aí um dos seguranças, que era um senhorzinho mais velho, que tinha escutado a minha história, ele viu que eu tava a ponto de fazer uma grande bobagem. E me chamou.
SEGURANÇA: Filho, me dá sua mochila aqui. Eu vou guardar aqui comigo, quando você sair do jogo você passa aqui e pega.
E graças à generosidade desse senhorzinho, eu consegui entrar pra ver o jogo de basquete.
Mas obviamente fiquei com esse trauma de mochila.
Então em 2018, quando eu tava dentro do trem, voltando de Santa Ana pra Los Angeles, e eu vi no ingresso que não podia entrar com mochila no auditório do Jimmy Kimmel, eu pensei: tenho que passar no hotel antes. Eu não vou de mochila pro teatro.
Mesmo com o tempo apertado. Mesmo com medo de chegar tarde. Mesmo com o risco de ficar no fim da fila e não conseguir entrar.
Mesmo sabendo que seria o meu segundo fracasso hollywoodiano em dois anos seguidos. Agora vou fazer mais um desvio pra te contar como foi o primeiro fracasso, no ano anterior.
Ato 3: O furacão
Bom, agora a gente tá em 2017. A viagem também era pra ver show, e eu também tive um dia livre pra turistar. Foi no último dia, na véspera do voo de volta pro Brasil.
Eu tinha comprado ingresso pra visitar dois estúdios. Mas aí não era estúdio de TV, de talk show. Eram dois estúdios de cinema. Aqueles estúdios grandões de Hollywood. O da Universal e o da Warner — fica um do lado do outro. Tem esse programa turístico, que é um tour pelos estúdios: você vai vendo os cenários dos filmes, das séries. E esses dois eram à tarde, dava pra ir nos dois. Comprei os ingressos pela internet.
Fui almoçar, voltei pro hotel, entrei no e-mail pra ver o endereço certinho, aí tinha um e-mail da companhia aérea, a United Airlines. Era algo assim:
Seu voo de amanhã foi cancelado por causa das condições climáticas envolvendo o furacão Harvey. Aguarde atualizações nos próximos dias.
Esse furacão tava no Texas, que é longe da Califórnia, mas é no trajeto do voo pro Brasil.
Só que aquele era o meu último dia de hospedagem. E tem um detalhe: a lei americana é diferente da lei brasileira. Aqui no Brasil, quando cancela voo, eles têm que pagar hospedagem e alimentação. Lá nos Estados Unidos não. Se é evento climático, furacão, tempestade, a companhia aérea não é obrigada a pagar nada. Você que se vire.
Aí ferrou.
E se o furacão ficar lá uma semana, duas semanas, eu vou ter que ficar pagando hotel? Em dólar? Não dava.
Que que eu fiz? Peguei o telefone e liguei pra companhia. É aquela coisa de discutir em inglês: eu não entendia direito o que a mulher falava, eu tentava explicar que eu era do Brasil, que eu não tinha dinheiro pra mais hospedagem, e a mulher transferia a ligação pra outro setor, e tome musiquinha… chegou num ponto que eu já tava há mais de uma hora no telefone. Eu desisti e desliguei.
Desci na recepção do hotel, pra perguntar quanto ia custar pra eu esticar a minha hospedagem por mais alguns dias. Só que nem tinha essa possibilidade. O hotel tava lotado. Ou seja, eu ia ter que procurar outro hotel em Los Angeles.
Não dá. Sem condição. Subi de novo pro quarto, liguei de novo pra companhia aérea, falei com outra atendente. Ela me falou a mesma coisa, que não tinha o que fazer, que essa rota de Los Angeles pro Brasil tava suspensa. Mas pelo menos essa atendente parecia ter um pouquinho mais de pena de mim.
Aí num momento de iluminação, eu joguei essa: ok, a rota de Los Angeles pro Brasil tá suspensa, mas e as outras rotas? Tá tudo suspenso? Não tem como você me botar num voo pra outro lugar dos Estados Unidos? E de lá me colocar num voo pro Brasil?
A atendente: Hummmmmmm, deixa eu checar aqui.
Pronto, fiquei mais um tempão ouvindo a musiquinha, mas ela voltou falando que sim, que ela podia me colocar num voo pra Washington. E de lá eu podia fazer uma conexão pra São Paulo. Só tinha pra São Paulo, pro Rio de Janeiro não tinha. Eu moro no Rio de Janeiro, mas naquele desespero eu falei: Minha filha, me bota nesse voo aí. Chegando em São Paulo eu me viro, eu pego um ônibus pro Rio, vou a pé, não interessa, eu só quero sair desse país.
E assim foi: ela me colocou nesse voo Los Angeles - Washington, depois Washington - São Paulo.
Deu um alívio saber que eu ia conseguir desviar do furacão e voltar pra casa.
Mas quando eu desliguei o telefone, aí eu me lembrei que tinha o negócio dos estúdios, né?
E já era.
Já tava no meio da tarde, perdi as duas visitas, morri com os ingressos na mão - e eram ingressos bem caros.
Em vez de viver a magia de Hollywood, eu passei a última tarde da viagem no telefone com a companhia aérea.
Foi uma pena porque eu tenho certeza que eu ia adorar esse tour. Eu já adorei quando fiz no Projac, no carrinho de golfe vendo os cenários das novelas, fiquei fascinado com aquele troço. Imagina na Warner e na Universal.
Ia ser um sonho, inclusive pro Rodrigo adolescente. Porque eu adolescente via muito filme. Eu via filme todo dia.
Passava as minhas tardes depois da escola dentro de uma locadora de vídeo. Eu praticamente morei dentro de uma locadora.
Ato 4: A locadora
Eu já falei aqui no onde eu tava que eu morei na Tijuca, na Zona Norte do Rio de Janeiro. Eu voltava da escola, almoçava e descia imediatamente. Todo dia. Porque no térreo do meu prédio tinha uma galeria, bem pequena, e no fundo dessa galeria tinha uma videolocadora. Não tô nem falando de Blockbuster, hein, isso é antes da Blockbuster.
Você é do tempo das videolocadoras? Tem alguma história boa aí pra me contar?
O mais estranho é que eu não lembro o nome dessa locadora. Memória é um negócio muito doido, porque eu ficava o dia inteiro ali e não lembro o nome.
Eu e meus vizinhos tínhamos esse hábito de alugar filme e juntar todo mundo na casa de alguém pra ficar vendo até de madrugada. Eu devia ter uns 12, 13 anos.
Lembro de uma madrugada específica, que eu fui no prédio vizinho, e a gente viu aquele filme Coração Satânico, já viu? Com o Robert De Niro. Filmaço.
O personagem do De Niro contrata um detetive particular pra investigar o sumiço de um cantor. Quem faz o detetive é o Mickey Rourke. E esse detetive vai enlouquecendo durante a investigação, o De Niro vai manipulando ele. No final do filme… eu vou contar o final do filme aqui, tá? Você me perdoa, mas esse filme já tem 40 anos. No final do filme… você descobre que o personagem do De Niro é o diabo.
Só que o título do filme em inglês é Angel Heart, coração de anjo. E eu não sei por que desgraça eles botaram o título em português Coração Satânico , que entrega o final do filme. Você só vai saber que o cara é o diabo no final do filme, mas pô, se o título é Coração SATÂNICO, estraga a surpresa!
E tem uma coisa: quando o diabo manipula o detetive, o símbolo que o filme usa pra esses momentos é uma batida de coração e a imagem de uma porta de elevador abrindo e fechando. A simbologia é essa: quando o detetive entra num elevador, é como se ele fosse possuído.
O filme acabou tipo 3h da manhã, e eu tive que voltar pro meu prédio. Ou seja, tive que pegar DOIS elevadores. Sozinho. Na madrugada. Eu com 12, 13 anos. Se o diabo não me pegou ali, não vai pegar nunca mais.
Mas voltando à locadora, eu e meus vizinhos ficamos muito amigos dos funcionários. Então a gente ficava a tarde toda lá resenhando. Os caras indicavam filme pra gente. Era aquela época dos filmes americanos de ação dos anos 80. Quando tinha algum lançamento, eles reservavam pra gente antes de botar pra alugar.
Eu lembro de um filme que eu fiquei muito maluco pra ver: Kickboxer, do Jean-Claude Van Damme. Eu era muito fã de O grande dragão branco, um clássico do Van Damme nos anos 80. Já tinha visto várias vezes no videocassete. Quando saiu esse Kickboxer, a expectativa era absurda. Então quando chegou na locadora, antes de eles botarem pra alugar pro público, eu levei pra casa pra ver.
Aí eu via, gravava numa fita e depois ficava revendo várias vezes.
Foi nessa locadora que eu vi pela primeira vez os filmes do Monty Python. Eu tava procurando uma comédia, o cara falou: Leva esse aqui. Era A vida de Brian. Peguei a caixinha, olhei as cenas na parte de trás, era tudo meio antigão, porque o filme se passa na época de Jesus. Falei: Cara, não vou gostar disso. Ele falou: leva, assiste, e se você não gostar, você não precisa pagar.
Eu levei, assisti, e até hoje tenho um poster enorme desse filme no corredor da minha casa. A vida de Brian é meu filme de comédia preferido de todos os tempos. Sem exagero, eu já devo ter visto esse filme, sei lá, mais de 30 vezes.
Isso de rever filme várias vezes era muito comum pra mim. Até hoje às vezes eu prefiro rever um filme que eu já sei que é bom em vez de pegar um filme novo.
O filme que eu mais vi na vida foi outro clássico daquela época, só que esse eu vi primeiro no cinema. Eu tava morando em Manaus, tinha uns 10 anos, e fui no cinema com meu pai pra ver esse filme. Na cena final, eu olhei pro lado, meu pai tava chorando, lágrimas e lágrimas. Eu sabia que as pessoas choravam vendo filme, mas a questão é que esse filme que a gente tava vendo era… Rocky 4.
Pô, Rocky 4 não é filme pra chorar, né? É que na cena final, depois da luta com o Ivan Drago na Rússia, tinha uma mensagem sobre a Guerra Fria. Meu pai começou a chorar no cinema. Emocionado com Rocky 4.
Poucos meses depois, eu ganhei de presente uma fita VHS desse filme. E quando botei pra ver, a fita era só em inglês, não tinha dublagem e não tinha legenda. Acho que alguém tinha viajado pros Estados Unidos e sabia que eu adorava esse filme, me deu de presente. Eu não falava inglês, mas eu tava tão obcecado que eu via aquela fita quase todo dia. Durante meses e meses e meses. Eu simplesmente decorei todas as falas, em inglês, mesmo sem entender o que os caras tavam falando. Eu sabia o som das falas, sabe? E vou dizer aqui que eu certamente vi Rocky 4… mais de 100 vezes. Tranquilamente. Pode me julgar.
Eu fui esse garoto viciado em fita VHS. Até da televisão eu gravava um monte de coisa. Teve uma época que eu gravava tudo de comédia na TV. Eu tinha uma coleção com várias fitas de Casseta & Planeta, Sai de Baixo, Os Normais. O Programa do Jô, que eu já citei aqui, eu gravava várias entrevistas.
Então, pra um garoto que gravava no videocassete as entrevistas do Jô, você entende que era importante pra mim aquela chance de ir na plateia de um talk show tipo o do Jimmy Kimmel em Los Angeles, certo?
Pois bem. Bora voltar pro dia 24 de setembro de 2018.
Ato 5: A fila
Eu tava no trem, lembra? Saí do trem, fui pro hotel, deixei a mochila, peguei ônibus, metrô… cheguei no teatro do Jimmy Kimmel às 15h40. A gravação começava às 16h. Eles pediam pra chegar uma hora, duas horas antes, e eu cheguei 20 minutos antes.
Bom, a fila já tava dobrando uma ruazinha na lateral do teatro, era uma fila gigantesca. Eu sei que eram 15h40 porque eu fiz uma foto no final da fila, e o nome do arquivo da foto tem a data e o horário:
Quando eu cheguei a fila já tava andando. Eles iam chamando de dez em dez. Entrava um grupinho, acomodava lá dentro no auditório, aí chamavam mais dez, e a fila ia andando bem devagarinho. Depois de mim ainda chegaram mais algumas pessoas, eu não era o último. Mas eu tava muito lá atrás, já tava conformado que eu não ia conseguir entrar. Eles já tinham avisado, lembra? Tinha mais ingresso do que a capacidade do auditório. Então em algum momento, quem tava ali no fim da fila ia morrer com o ingresso na mão.
O pessoal foi entrando, a fila foi diminuindo, e aí o segurança veio chamar o último grupo. Ele veio contando as pessoas na fila: 1, 2, 3, 4, 5, chegou em mim, eu entrei!
E pouco depois ele parou a contagem, umas três ou quatro pessoas atrás de mim. Depois disso, ninguém mais entrou.
Fiquei muito feliz. Entrei na última leva!
A partir dali, tem todo um protocolo. Você pode entrar com o celular, mas não pode usar, não pode fazer foto nem vídeo lá dentro.
A moça da produção pegou esse último grupo e levou direto pro auditório. Já tava quase lotado, todo mundo sentadinho, uma ou outra poltrona vazia, e ela foi acomodando os últimos. Ela me levou lá pra cima, na última fileira, e falou: Você senta aqui.
Quando a plateia tá toda preenchida, entra uma pessoa com um microfone pra explicar como vai ser a gravação. Não é ao vivo, né? Eles gravam de tarde, e o programa vai ao ar de noite. Mas é gravado como se fosse ao vivo, então é tudo muito organizadinho.
Tem aquelas placas que eles levantam pra dirigir a plateia, com a hora de aplaudir, a hora de fazer barulho, a hora do silêncio. Antes de começar eles ainda perguntam se alguém quer ir no banheiro, porque depois que começa a gravar, ninguém pode sair.
Aí entra no palco um comediante local, pra fazer tipo um aquecimento da plateia. Ele fica ali uns 10 minutos falando umas coisas engraçadas, pro pessoal já ficar no clima.
E quando acaba o aquecimento, eles pedem silêncio. A banda posicionada. Aquela tensão no ar. A banda começa a tocar, e entra o Jimmy Kimmel. A plateia levanta, aplaude, grita. E eu lá fazendo meu papel: aplaudindo, assoviando, batendo palma!
Tem aquele monólogo inicial pra abrir o programa. O programa do Jô também tinha, lembra? Ele abre contando umas piadinhas. Plateia empolgadíssima. Aí faz um intervalo rápido, e na volta ele chama o primeiro entrevistado.
São dois entrevistados no programa. O primeiro era o Hasan Minhaj, aquele comediante americano de origem indiana, você conhece? Eu até acho ele bem engraçado, mas a entrevista eu achei mais ou menos. Mesmo assim eu tava lá aplaudindo, gritando, aêêê, tá ótimo!
Eu tava realmente empolgado pra segunda entrevista. Como eu falei, eles só liberam a programação da semana poucos dias antes. E naquela semana tava bem fraquinho, era um monte de atriz e ator americano que eu nem conhecia.
Mas pra minha sorte, a segunda entrevistada daquele dia era a… Viola Davis.
Atriz gigante. E em 2018 tava bombando aquela série How to get away with murder, que eu tava assistindo. Então só de poder ver a Viola Davis de pertinho ali naquele auditório…
Foram dois blocos com ela. Falou sobre a série, contou umas histórias sobre a filha dela, que na época tinha 8 anos. Foi engraçado, foi divertido, e pra mim foi uma experiência muito diferente, de presenciar a gravação de um programa do horário nobre na TV americana.
Eu querendo fazer uma fotinha, mas não podia nem tirar o celular do bolso, senão o segurança já vinha pra cima.
Quando acaba a entrevista, eles começam a tirar as pessoas das poltronas e levam pra um estúdio menorzinho do lado, onde tem um palco. A atração musical daquele dia era a banda inglesa Bastille, que eu nem conheço direito. Dois dias depois foi a Avril Lavigne, ia ser mais divertido, né?
Aí é a mesma coisa, a gente fica na plateia, e tem que ficar empolgado. Eu nem conhecia a música, mas fiquei lá como se fosse o maior fã da banda. Pelo que eu lembro, eles tocam duas músicas, e acaba. É tudo muito rápido. Da hora que eu entrei até a hora de sair do teatro, são umas duas horas no máximo.
E eu saí sem nenhum registro de foto ou vídeo, só com o registro da memória, que é isso que eu tô fazendo aqui agora, organizando as lembranças.
Mas eu tenho a foto da fila antes de entrar, e quando eu saí, o teatro fica na Calçada da Fama de Hollywood. A calçada inteira é com aquelas estrelas no chão — e são as duas calçadas, nos dois lados da rua.
Logo na porta do teatro, tem a estrela do Jimmy Kimmel. Fiz uma fotinha ali pra registrar. Mas já que eu não pude tirar foto da Viola Davis lá dentro, eu queria pelo menos achar a estrela dela na calçada. Eu nem sabia se ela tinha estrela ou não, mas pô, deve ter, né? É a Viola Davis!
Eu saí andando, olhando pro chão, pra ver se eu encontrava. Só que é muita estrela. Depois fui pesquisar, são quase 3 mil estrelas, são 18 quarteirões com estrela nos dois lados da rua.
Saí do teatro, e eu podia ir pra esquerda ou pra direita. Escolhi um lado e fui. Andando, andando, andando, até acabar, e nada de Viola Davis. Atravessei a rua pra voltar pelo outro lado, andei tudo de volta, olhando pra baixo, e nada. Cheguei de novo na frente do teatro, e comecei a andar pro outro lado. No mesmo quarteirão, um pouquinho depois daquele museu de cera Madame Tussauds, tava lá no chão:
Missão cumprida. Já tava de noite, voltei pro hotel, porque eu queria ver o programa na televisão, pra ver se eu aparecia. Claro que eu não apareci, eu tava escondido lá na última fileira.
Mas valeu. Fui dormir feliz, e no dia seguinte peguei o avião pra Seattle. Essa história de Seattle eu já contei aqui, tá lá no episódio 5, se você ainda não ouviu, vai lá ouvir.
Enquanto você ouve, acho que eu vou ver Rocky 4 mais uma vez.
Nunca é demais.
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