onde eu tava quando aquilo aconteceu
onde eu tava quando aquilo aconteceu
#07 | O estagiário
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#07 | O estagiário

A bronca que levei do repórter da Globo, e um jornalzinho clandestino feito dentro do sistema de publicação de um dos maiores veículos do país.

Oi, eu sou o Rodrigo.

E esse é o sétimo episódio de onde eu tava quando aquilo aconteceu.

Se quiser escutar, é só usar o player ali no alto, ou buscar em qualquer tocador de podcast (inclusive recomendo). Se prefere ler e ver as imagens, é só seguir em frente.

Depois me conta o que achou? Obrigado!

Dia 19 de junho de 1996. Faz tempo, tá fazendo 30 anos. Era uma quarta-feira, no comecinho da noite. E eu tava numa calçada em frente à Santa Casa de Misericórdia, o hospital mais antigo do Rio de Janeiro. Eu tinha 18 anos.

Aí do nada, um repórter da TV Globo, de terno e gravata, com microfone na mão, saiu de dentro do hospital e veio na minha direção. Quando eu percebi ele já tava com o dedo apontado pra mim gritando:

Pô, moleque, tá querendo me sacanear??

E eu… bom, eu com 18 anos e estudando pra ser jornalista, numa situação dessa eu só queria me enfiar num buraco e desaparecer daquele lugar, né?

Ato 1: Quem é Nelson Batista?

Bom, daqui a pouco eu chego nessa cena em que o repórter da Globo saiu do hospital gritando comigo - aliás eu não lembro se ele tava gritando, não sei se chegou a ser uma gritaria, mas ele tava bem enérgico. Pra te contar o que eu tava fazendo ali naquela calçada, eu vou ter que voltar uns meses.

Naquele primeiro semestre de 1996, eu tava no terceiro período da faculdade de Jornalismo. E desesperado pra arrumar um estágio.

Um belo dia, meu pai chegou em casa e falou assim:

Conheci um cara que trabalha no Jornal do Brasil! Nelson Batista, o nome dele. Falei de você pra ele, ele disse pra você ir lá na redação amanhã que ele vai tentar te arrumar um estágio.

Eu sempre tive muita vergonha dessas coisas de pai indicando. E foi a única vez que rolou isso, até porque a minha família não tem ninguém do jornalismo. Meu pai era bancário.

Mas naquele desespero, eu fui, né?

O Jornal do Brasil ocupava um prédio gigantesco na Avenida Brasil. Só de olhar já dava medo. Qual a chance de eu arrumar um estágio num lugar daquele tamanho?

Todo tímido, falei com a secretária da redação, a Marília.

RODRIGO: Bom dia, meu nome é Rodrigo, eu vim falar com o senhor Nelson Batista.
MARÍLIA: Nelson Batista? Mas ele é de qual editoria?

Naquela época eu mal sabia o que era uma editoria, que são as seções do jornal.

RODRIGO: Não sei. Eu só sei que ele trabalha aqui. Eu sou estudante, ele pediu pra eu vir falar com ele a respeito de uma vaga de estágio.

Marília foi checar, e simplesmente não tinha nenhum Nelson Batista no prédio. Nem na redação, nem nos outros andares.

Eu fiquei tão constrangido, nem sabia o que falar pra ela. E acho que ela percebeu.

MARÍLIA: Ó, já que você veio até aqui, e você é estudante, se você quiser eu posso pedir pra alguém te mostrar a redação, só pra você conhecer. Quer?

Querer, eu não queria. O que eu queria mesmo era sumir dali. Mas pô, eu nunca tinha entrado numa redação. E era o Jornal do Brasil, o JB. Não era mais aquele JB glorioso dos anos 60, 70, 80, já tava meio em crise financeira, mas ainda era o JB.

Então eu aceitei, e a Marília foi falar com o editor de Cidade, a editoria que cobre as questões locais. O cara me levou pra fazer um tour, bem rapidinho, me mostrou a redação. E falou: “Ó, se você quiser ficar sentado ali no cantinho vendo a gente trabalhar, fica à vontade, não tem problema não”.

Eu sentei, e fiquei ali um tempo. Meio encantado.

Foto em sépia da redação do JB com várias baias, mesas, pessoas sentadas e máquinas de escrever.
Essa foto é de um pouco antes, nos anos 80, ainda com as máquinas de escrever. Mas era assim a redaçã do JB. Crédito: Blog Álbum Jotabeniano

Eu nunca tinha visto aquilo. Aquele monte de gente andando de um lado pro outro, falando no telefone, aquele burburinho de redação, era a primeira vez que eu escutava aquilo. Eu tava hipnotizado, sabe?

Acho que fiquei algumas horas ali, só olhando. Apesar da minha timidez, eu lembro que pensei: Pô, é isso que eu quero. Eu quero trabalhar com isso.

Fui agradecer ao editor, e ele falou: “Se quiser voltar amanhã, pode voltar, você fica aqui observando, vai ser bom pra você”.

E eu voltei no dia seguinte.

Mesma coisa, fiquei umas horinhas lá olhando o povo trabalhar. Eu lembro que esse segundo dia foi uma sexta-feira, porque na hora de ir embora, o editor falou: “Se quiser voltar na segunda, ficar aí na semana que vem, pode voltar”.

Eu pensei “pô, não é possível”. Eu não tava entendendo nada. Por que esse cara tava me deixando ficar ali na redação de bobeira?

E voltei na segunda. Faltei na faculdade a semana inteira, e fui todos os dias pra redação do Jornal do Brasil.

Pra mim era tipo um zoológico dos jornalistas, sabe? Eu ficava ali quietinho, só observando a fauna se movimentando. Não falava com ninguém, e ninguém entendia nada. O pessoal devia achar que eu era, sei lá, filho do dono. Mal sabiam eles que eu era filho do cara que me mandou lá pra falar com um Nelson Batista que nem existia.

O fato é que eu fiquei ali, no meu zoológico particular dos jornalistas durante três meses.

Três meses.

Eu não ia todo dia, por causa da faculdade, mas ia umas duas, três vezes por semana.

E o editor começou a me passar umas coisas pra fazer. Aí eu entendi. Eu passei a ser o garoto que fazia as coisas chatas que ninguém queria fazer. Aquela notinha curtinha, aquele trabalho burocrático de ir buscar não sei o que não sei aonde. E de graça, eu não recebia nada.

Teve um dia que um cara chegou pra mim meio esbaforido e falou: “Garoto, corre lá no departamento de pesquisa e pega uma calandra”. Eu falei: “Calandra?”. E ele: “Corre lá, eles sabem o que é”.

Eu saí correndo, a pesquisa ficava no fim de um corredor. Entrei lá: “Oi, o pessoal da editoria de Cidade tá pedindo a calandra”. Todo mundo começou a rir. Não existia calandra nenhuma, era um trote que eles faziam com os estagiários. Quando eu voltei tava todo mundo rindo da minha cara.

Eu nem era estagiário e tava levando trote de estagiário.

Pelo menos eu tava escrevendo umas notinhas de vez em quando. E saía no jornal. Não com o meu nome, porque se o estagiário não podia assinar matéria, imagina eu. Mas eu comprava o jornal na banca e mostrava em casa: “Ó, isso aqui fui eu que escrevi. O tal do Nelson Batista não existe, mas eu tô lá escrevendo umas notas de vez em quando”.

Ato 2: Santa Genoveva

Nesses três meses, o editor às vezes me botava pra ir pra rua com os repórteres. Alguém ia fazer uma reportagem, eu ia junto. Isso foi bem legal. Na maioria das vezes eu saía pra acompanhar o estagiário. Eu era tipo o estagiário do estagiário.

Numa dessas saídas, eu fui com um estagiário que se chamava Felipe. Não lembro o sobrenome dele, e não tem como pesquisar, porque como eu falei, estagiário não assinava matéria. Mas era Felipe.

Tava rolando um caso que foi um escândalo no Rio de Janeiro em 1996.

A Santa Genoveva era uma clínica de idosos acusada de maus-tratos. Pra você ter ideia, em cinco meses morreram 156 velhinhos ali. Tudo bem que velhinho morrer em hospital é razoavelmente comum, mas 156 em cinco meses era demais.

Aí a clínica foi interditada, e os pacientes começaram a ser removidos pra outros hospitais.

Esse dia que eu citei na abertura do episódio, 19 de junho de 96, foi o último dia das remoções. Faltavam sete pacientes pra sair, e aí a clínica ia ser fechada de vez.

Então a imprensa toda foi pra porta da Santa Genoveva, de plantão. Todo mundo esperando pra registrar a saída desses últimos sete.

Aí abre o portão, e sai uma kombi. Não era nem ambulância, era uma kombi. O motorista falou que tava levando os pacientes pra um hospital na Tijuca.

Essa kombi tinha seis velhinhos.

Então não eram sete, eram seis. E a imprensa toda foi atrás da Kombi até a Tijuca pra registrar essas últimas seis remoções.

Eis que Felipe, o estagiário do Jornal do Brasil, falou:

FELIPE: Não. Eu não vou. A informação não é que são sete? Então deve ter mais um pra sair, que vai ser o último paciente. Eu vou ficar pra registrar esse último.

E eu, na experiência dos meus 18 anos, fiquei pensando: Esse garoto é maluco. A imprensa inteira foi atrás da Kombi com os seis velhinhos. E só a gente vai ficar aqui, imaginando que tem um sétimo?

Felipe bancou. E a gente ficou: eu, Felipe, uma fotógrafa do JB, e o motorista do nosso carro.

Aquele silêncio, portão fechado, não tinha mais nada ali. Felipe já com aquela carinha admitindo a derrota, sabe?

Daqui a pouco, umas cinco da tarde, abre o portão de novo.

E sai mais uma Kombi.

Com uma senhorinha lá dentro.

Felipe tava certo.

Aquela sim, era a última remoção antes de fechar a clínica de vez. E só tinha o Jornal do Brasil pra registrar. A fotógrafa fez as fotos, e o motorista da kombi falou pra gente que ele tava indo pra Santa Casa de Misericórdia, no Centro. Confirmou que essa era a última paciente mesmo. A gente foi atrás da Kombi.

Felipe brilhou, a verdade é essa. Ele tomou a decisão sozinho, arriscou tudo, e ele tava certo. Viva os estagiários!

Chegando lá na Santa Casa, eles entraram, mas eu não podia entrar, eu não tinha nem crachá. Então fiquei esperando na calçada, no carro. Eu e o motorista.

Passou um tempinho, já anoitecendo, o motorista foi na padaria comprar um negócio pra comer, e eu tava ali encostado no carro.

Nisso chega o carro da TV Globo. Com aquele símbolo gigante da Globo na porta.

O repórter da Globo era o Ari Peixoto.

Grande repórter, muito conhecido das coberturas no Rio de Janeiro, e também foi correspondente internacional da Globo. Ele chegou, me viu ali na calçada encostado no carro do JB, e perguntou: “O que houve? Falaram que ainda saiu mais uma kombi com uma velhinha? Trouxeram ela pra cá?”

Sabe aquele meme:

Print do meme "como vim parar aqui meu deus só tenho 6 anos"

Pois é, eu só tinha 18 anos.

Eu nunca tinha trabalhado, não sabia como é que as coisas funcionavam.

Porque numa cobertura dessas, tem uma certa camaradagem da imprensa. Mesmo sendo concorrente, um acaba ajudando o outro. Mas eu não sabia. Pra mim, Felipe era o grande herói daquele dia. O estagiário que não foi na onda do resto da imprensa e conseguiu o furo de reportagem da última remoção.

Nervoso, eu meio que dei uma enrolada no Ari Peixoto, olha que situação: “É, não sei, o Felipe foi lá dentro ver”. E ele insistindo: “Mas a velhinha veio pra cá?” E eu: “Não sei, não vi direito…”

Aí ele percebeu que eu tava enrolando e entrou no hospital. É óbvio que ele ia entrar no hospital e ia saber, né. Mas eu tava muito nervoso, fiquei sem saber o que falar.

Uma hora depois, já era de noite. E aconteceu a cena.

O Ari Peixoto saiu de dentro da Santa Casa, junto com o Felipe, e já veio apontando pra mim e gritando: “Ô moleque, cê quer me sacanear?”

Ele falava pro Felipe: “Ensina aí pro teu estagiário a não ficar enganando os colegas”. Mal sabia ele que o estagiário era o Felipe. Eu não era nem isso.

Nem tentei me justificar. Só entubei o esporro. Depois, dentro do carro, expliquei pro Felipe, e ele entendeu. De fato era um furo nosso. Mas é aquilo, o Ari Peixoto chegou no hospital, então de qualquer jeito ele ia ter a informação também, eu podia ter falado.

Mas foi assim que eu comecei no jornalismo: frequentando uma redação meio de penetra, e arrumando uma briga com um dos melhores repórteres da Globo.

E tem uma coisa. Eu nunca mais encontrei o Ari Peixoto. Hoje ele trabalha na Record. E parece ser um cara muito gente boa. Tenho até vontade de um dia trocar uma ideia com ele e contar essa história, que ele certamente nem lembra. Então se você conhece o Ari Peixoto, manda esse episódio pra ele. E Ari, se esse material chegar a você, me perdoa, eu não quis te enganar. Eu era só um sub-estagiário que não sabia direito o que fazer.

Ato 3: Mexe a cadeira

Essa aventura de penetra no Jornal do Brasil terminou quando eu finalmente arrumei um estágio de verdade, um estágio remunerado. Foi na rádio da minha faculdade. Eu estudava na Gama Filho. Que nem existe mais.

Então eu arrumei esse estágio remunerado na rádio da faculdade. Era uma rádio que só tocava nos alto-falantes dentro do campus. E era o dia inteiro tocando música clássica no repeat. De hora em hora entrava um boletim de notícias, de cinco minutinhos, que os estagiários da rádio escreviam e liam no ar. Era só isso, música clássica e o boletim de hora em hora.

Só que aí foram entrando estagiários novos. E a gente foi inventando uns programas. Tinha a mesa-redonda de futebol, tinha o programa de pagode, o programa de rock.

Eu lembro que um dia, em 1997, um cara bateu lá na porta da rádio dizendo que tava lançando a primeira música dele e queria deixar o CD com a gente.

E esse cara era o Vinny. Você lembra do Vinny? A música era “Heloísa mexe a cadeira”. Na versão em áudio eu canto um trechinho da música, caso você queira ouvir essa linda interpretação. Mas aqui vou deixar esse clipe maravilhoso:

Essa música chegou a ser a mais tocada no Brasil inteiro. Então eu gosto de alimentar a lenda de que fui eu que lancei o Vinny pro estrelato. Pode botar essa aí na minha conta.

Um dos coordenadores da rádio era o Paulo César Rabelo, que era locutor esportivo. Então a gente também fazia umas transmissões de jogo de futebol. E eu era um dos narradores.

Esse material da rádio eu ainda tenho algumas coisas gravadas em fita cassete. Então, sim, eu vou fazer você passar por esse pequeno constrangimento de ouvir o Rodrigo com 20 anos de idade, narrando um gol do Romário. Era um jogo do Brasil contra a Arábia Saudita em 12 de dezembro de 97. Dá o play aqui:

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Essa vinheta é loucura, né? A narração é um pouquinho constrangedora, ok, depois me diz aí o que você achou. Mas a vinheta é espetacular, eu tinha uma vinheta com o meu nome! 😄

Vou tocar um outro trecho curtinho, uma chamada do programa de uma outra estagiária, a Ana Carolina Diniz. Que é uma querida, hoje ela é uma grande jornalista, trabalha no jornal O Globo.

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Sucesso a Rádio Gama, né? Pagode, axé music, gol do Romário, e ainda teve em primeira mão Heloísa Mexe a Cadeira, do Vinny.

Eu adorava esse estágio. Mas eu tinha medo de me formar, perder o estágio, e ficar fora do mercado.

Eu precisava voltar pra uma redação, tipo a do Jornal do Brasil. Só que, né, sendo remunerado. E eu já sabia que o Nelson Batista não existia. Então eu tinha que ir pelo caminho correto. O processo de seleção. A temida prova de estágio.

Ato 4: O elevador

Naquela época, no Rio, tinham duas provas de estágio de jornalismo muito concorridas: a do Jornal do Brasil e a da TV Globo. Eram processos longos, com várias fases, prova escrita, dinâmica de grupo, entrevista.

No fim de 1997, eu já tava indo pro sétimo período, reta final da faculdade, eu me inscrevi nas duas: JB e TV Globo. Cada uma tinha uns 700 candidatos.

Na prova da Globo, eu fiquei entre os 30 primeiros, o que até hoje eu acho um milagre. Mas eram só 5 vagas, então o milagre não adiantou nada.

Na do JB, eram 30 vagas, e eu fui até a última fase, tava esperando o resultado final, pra saber se eu ia ficar entre os 30. O RH ia ligar pra casa dos 30 aprovados.

Eu tava muito ansioso. Mas passou uma semana, passou outra, passou um mês, então é isso, não rolou.

Isso já era dezembro, e eu sempre passava as férias em Muriqui, uma cidade aqui no estado do Rio. Aquelas férias eram as férias da depressão, né? Eu tinha tido duas grandes chances de conseguir um bom estágio, na Globo e no JB, avancei bem nos dois processos, cheguei na etapa final, mas bati na trave nos dois.

Então é isso, bora pra Muriqui.

Chegou o dia de ir: eu, meu pai, minha mãe e minha irmã. A gente pegou as malas, botou no corredor, pra pegar o elevador. E era bastante mala, porque a gente ficava uns dois meses fora, a gente só voltava de Muriqui lá pro fim de janeiro, começo de fevereiro.

E aí o que eu vou contar agora, eu sei que vai parecer mentira. Eu não tenho como provar, mas te digo mais uma vez: tudo que eu te conto aqui é verdade, de coração. Pelo menos é a verdade que tá na minha memória.

A gente tava no corredor com as malas, esperando o elevador chegar.

E o telefone tocou.

Juro. Eu saí correndo tipo aquele povo que vai atender o telefone do Big Brother, sabe?

Inacreditável. Era o RH do Jornal do Brasil, dizendo que eu tinha sido aprovado pro estágio. E que os 30 aprovados iam passar por um treinamento ao longo daquele mês de dezembro.

Você tem noção da maluquice que foi isso? Se o RH do jornal ligasse pra minha casa, sem brincadeira, DOIS MINUTOS depois, não ia mais ter ninguém em casa.

Eles provavelmente ligariam de novo em outro horário, em outro dia, mais uma vez, duas vezes, três vezes, dez vezes. Só que não ia ter ninguém em casa nos dois meses seguintes. Eles não iam me achar. Eu ia estar lá em Muriqui, deprimido. E só ia voltar em fevereiro. Eu simplesmente ia perder o estágio.

Por dois minutos, eles me acharam, eu atendi o telefone, e foi uma das melhores ligações que eu recebi na minha vida. Muriqui cancelado, fiquei no Rio pra fazer o treinamento.

Quem comandou esse treinamento foi o PC Vasconcellos, que hoje é comentarista no SporTV. Ele tinha que escolher 15 que iam começar o estágio em janeiro de 1998. E os outros 15 iam ser chamados ao longo do ano. Eu não fiquei na primeira leva, mas fui chamado em agosto de 98.

Aí sim, eu comecei no Jornal do Brasil como estagiário, com crachá, ganhando um dinheirinho, um esquema bem diferente daqueles três meses de penetra.

E sem Nelson Batista.

Eu fiquei oito anos no Jornal do Brasil.

Ato 5: Clandestinos

Talvez você esteja estranhando: como assim, uma turma de estagiários com 30 cabeças? É muita gente, né? O JB tinha uma redação muito grande, talvez uns 200 jornalistas. Mesmo assim, 30 estagiários é muita coisa.

Então você imagina a rede de fofoca que foi criada naquela redação, porque estagiário é um bicho fofoqueiro.

E não julga não, porque você também é. É pra isso que você tá aqui, pra saber as fofocas da minha vida. Segura aí mais uma.

Em 1998, não tinha celular, não tinha whatsapp, não tinha nem MSN. Então como é que a gente ia fofocar durante o expediente? Não dava pra ficar levantando da mesa toda hora. A gente precisava criar um grupo de whatsapp, mesmo uma década antes da invenção do whatsapp.

O JB tinha naquela época um sistema de publicação de matérias no computador que todo mundo na redação acessava. Cada um tinha um login pra entrar nesse sistema, um login de três letras.

Você entrava com o login, e tinham as pastas particulares, que só você acessava, pra botar ali a sua apuração, escrever os seus textos. Quando o texto tava pronto, você jogava pra pasta pública, que os editores acessavam. Mas as pastas particulares ninguém via, só o dono do login.

O que é que a gente fez?

Teve um estagiário que saiu do jornal, e a gente sabia o login dele. Porque alguns logins viravam o apelido da pessoa.

Era o meu caso, o meu login era ROA. Meus amigos da época de JB me chamam de Roa até hoje.

Então quando esse cara saiu, a gente sabia o login dele.

E a gente espalhou esse login pra todos os 30 estagiários. Cada um tinha o seu login pessoal, pra escrever as matérias, e todos tinham acesso a esse login comunitário, que só a gente acessava. Era como se fosse um fórum. Você entrava lá, abria um tópico, e só os estagiários viam. Tipo um grupo de whatsapp mesmo.

Só que a coisa escalou mais rápido do que eu imaginava.

Como o jornal tava numa crise financeira, tinha atraso de salário, tinha leva de demissão, então o clima de fofoca nos bastidores era muito intenso. E estagiário também é um bicho muito bem informado.

A gente deu um passo além. Dentro desse login comunitário, a gente criou um jornal clandestino.

Chamado O Estagiário.

Que só os estagiários do Jornal do Brasil acessavam, escreviam e liam.

Tinha reportagem com informação de bastidores, tinha especulação de quem ia entrar na lista de demissão. Começou a ter colunista. Eu tinha uma coluna em O Estagiário. Uma coluna semanal de notinhas. Fofoca, né?

Virou uma coisa grande. É óbvio que começou a circular na redação a notícia de que os estagiários tinham um jornal secreto dentro do sistema de publicação.

Mas em vez de dedurar pra chefia ou pro RH, os repórteres e os editores ficavam tentando descobrir o login, pra poder ler as coisas que a gente escrevia.

Isso deu um certo poder pros estagiários na redação, sabe? Todo mundo queria o nosso login. E a gente tinha um pacto de não passar pra ninguém, só estagiário podia ter acesso.

Assim foi durante todo o ano de 98.

Alguns foram saindo, uns se formaram, foram contratados. Mas o segredo foi mantido.

Até onde eu sei, o RH jamais descobriu o nosso jornalzinho.

Você viu que a minha trajetória no Jornal do Brasil foi baseada em hackeamentos, né? Primeiro passando aqueles três meses infiltrado, sem contrato, sem salário, sem prova de estágio, nada.

Depois oficialmente como estagiário, mas criando esse veículo clandestino.

E ao longo dos oito anos, a crise do jornal foi se agravando. Eu já não era mais estagiário, fui repórter, depois editor, e a gente fazia manifestações, cobrando condições de trabalho, ameaçava fazer greve, assembleia no sindicato.

A redação saía pra protestar contra o empresário que era dono do jornal. Distribuía panfleto na praia de Copacabana. Teve um dia que a gente desceu e fechou o trânsito na Avenida Rio Branco, uma avenida importantíssima no Rio de Janeiro.

Até o meu pedido de demissão em 2005 foi uma espécie de protesto, por causa de uma censura interna que aconteceu e eu não aceitei.

Quem sabe um dia eu conto essa história aqui. Mas por enquanto, eu só te digo que talvez… meu advogado pediu pra eu não confirmar nada, mas talvez… o último texto que eu publiquei no Jornal do Brasil talvez tenha uma mensagem cifrada secreta, juntando a primeira letra de cada parágrafo e formando uma frase contra o dono do jornal.

O pior é que na verdade eu nem tenho advogado.

Então por hoje chega, né?

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